Nosso Anti-Patrono

 

oda ordem tem o seu patrono. Os Franciscanos, São Francisco, os Jesuitas, o Filho do Homem, os Maristas, sua mãe, as Carmelitas, Don Carmelo. Até a Igreja tem o seu, São José, que os hereges maldosamente afirmam acumular o cargo de padroeiro dos cornos. Só a Ordem dos Santos Homens não tem o seu. Desde a sua criação que o cargo encontra-se vago. Os bons nomes já haviam sido todos tomados e outros não mereciam a honra de patronear esse singular grupo de servidores do Senhor. A solução foi escolher um anti-patrono, uma figura execrável, que significasse tudo aquilo a que essa ordem se opõe: Padre Francisco da Costa.

No século XV, como prior de Trancoso, PT, o padre usava e abusava de manjares de carne para poder dar asas ao seu hedonismo, dizia a crônica social da época. Não fazia jus à batina que vestia e cobiçava todas as mulheres, de qualquer idade, independentemente de laços familiares à sua pessoa.

Conta-se que na sua alcova se deitaram vinte e nove afilhadas, de onde resultaram noventa e sete filhas e trinta e sete filhos. Nem as comadres escaparam ao apetite do prior, resultando daqui o crescimento da sua família com trinta e oito rapazes e dezoito raparigas.

Dormiu com as próprias irmãs, fazendo nelas mais dezoito sobrinhas. As amas que o serviam deram-lhe vinte e nove empregadinhas e cinco moleques de recado. Das escravas conta-se que o prior teve vinte um vinbundos e sete mucamas. Para o leito levou também o Padre Costa a sua tia, Ana Cunha, com quem teve três primas, sem contar a sua própria mãe, na qual gerou dois irmãos. Ao todo foram 299 filhos, dos quais 214 foram mulheres, que ele sempre preferiu. Urinasse de cócoras e não fosse sapo, lá estava o nosso anti-herói mandando ver. Só não marcou festivamente a nº 300 porque alguns invejosos locais o denunciaram aos públicos poderes.

Aos sessenta e dois anos, réu confesso, foi condenado ao degredo de suas ordens e a fazer um city-tour nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeças e mãos em diferentes distritos para que pudesse ser homenageado por toda a população. Necessariamente nessa ordem.

Escapou dessa triste sina pelas mãos de D. João II, que argüiu que as contas não batiam e que afinal o homem tinha ajudado a povoar a região da Beira Alta, que disso muito carecia. El-Rey lhe concedeu uma anistia ampla geral e irrestrita e o tomou como conselheiro e contador de causos.

 

"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de 62 anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi argüido e que ele com irmãs teve 18 filhas; de nove comadres 38 filhos e 18 filhas; de sete amas teve 29 filhos e cinco filhas; de duas escravas teve 21 filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos. Total: 299, sendo 214 do sexo feminino e 85 do sexo masculino, tendo concebido em 53 mulheres".

   (Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal - Sentença proferida em 1487, no processo contra o Prior de Trancoso - Autos arquivados no armário 5º, maço 7).

 

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